"Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior." (Fernando Pessoa, O livro do desassossego).
Ao mesmo tempo em que me sinto profundamente triste e sozinho, estou melhor que nunca. Me sinto confiante, me sinto como se eu pudesse ter qualquer mulher, conquistar qualquer emprego, obter as melhores notas, estar nos melhores lugares, no entanto, nada disso me apetece...
Vivo. Essa é a palavra. Me sinto vivo. Diz-se que o momento em que se está mais vivo é aquele que antecede a morte. Mas não acho que eu vá morrer agora, ou, ao menos, não é isso que me tem motivado. Pra falar bem a verdade, não sei o que tem me motivado.
Da mesma forma, não sei de onde vem essa tristeza, essa solidão. E quanto mais triste, mais só, mais me sinto vivo. E mais sonho. Mais planejo. Mais invento histórias que nunca sairão da minha cabeça. Mais amo. Mais ofereço. Menos dôo.
"Mais ofereço. Menos dôo." Mais uma contradição. Mas essa se explica pelo medo. Não gosto de sentir medo, ele me faz sentir fraco, e eu não tenho o direito de ser fraco. Mas enfrentá-los requer força, e eu não tenho mais nenhuma. Então me sinto vivo e não vivo, por medo. Medo de tudo. Medo de viver além do conhecido. Medo de ser feliz e deixar de ser vivo. Medo de comprovar que não ESTOU triste, mas que SOU triste. Medo de me deixar ser amado. Medo do que posso encontrar. Medo de você. Medo dela. Medo de dar tudo certo. Medo de tudo acabar mal. Medo de não saber. Mas, principalmente, medo do que sou capaz de fazer, porque não o sei. Medo de quanto mal posso causar. Medo de quanta dor pode ser originada por mim. Medo de quanta felicidade por estar escondida em mim. Medo de ser demais. Medo de ser de menos. Medo de ser eu mesmo. Medo de não saber quem eu sou.
Tenho medo de mim.
Mas isso é assunto pra outro dia...