sábado, 24 de maio de 2008

Aquele cara que eu sou

Aquele cara que eu sou
Felipe Amorim

Eu sou aquele cara, que passou anos a fio procurando uma resposta que se escondia nas perguntas que eu mesmo me fazia;
Eu sou aquele homem, que pediu uma medalha pela caça da fera e recebeu uma migalha pela captura da flor;
Eu sou aquela mulher, que, inspirada na mãe, encontrou o amor no filho, que, inspirado no pai, encontrou o amor nas mãos, que, inspiradas em Deus, encontraram o amor no mundo;
Eu sou aquela criança, que sem saber aonde iria foi pra onde queria, e sem saber se queria voltou de onde partia, e sem saber que podia, foi lá e fez de um sonho o contorno da vida;
Eu sou aquela fera que foi caçada no passado, correndo do futuro incerto, pra ressurgir num presente intrépido e rir pra tudo que passou;
Eu sou aquela flor plantada na pedra, que deu apenas uma pétala, porque não foi regada com o esmero do colibri, mas descobriu tarde demais que não existe adubo melhor que um perfume de flor;
Eu sou aquele ser, que achava que ser único era ser legal, vendo que ser sozinho não o faz especial; que pra ser bom tem que ser uno, como o universo que é só ele e tantos outros, e por isso é infinito;
Eu sou aquele cara, que passou anos a fio procurando uma pergunta que se encontrava nas respostas que eu mesmo já sabia que tinha;
Eu sou aquele nômade, que viajou o mundo inteiro nos olhos do falcão, usando seu próprio lombo, e acordou na própria cama de um mundo real e ufano, que nunca foi além da própria janela;
Eu sou aquele alquimista, que descobriu que com as asas da alma podia-se romper as amarras do pensamento, e em forma de luz a janela já não segurava mais; e daí sim girou mundo;
Eu sou aquele peregrino, que se tornou dançarino da valsa que a vida conduziu, num salão onde a platéia era todos aqueles... aqueles todos de antes;
Eu sou aquele fraco, que nunca pensou no futuro, e amou o passado, se esquecendo de viver o presente; e perdeu todo o tempo que tinha pra fazer alguma coisa legal;
Eu sou aquele, que nem mesmo eu conheço bem, mas que sem saber como, mudou seu passado; e sem saber porque, transformará o futuro; feliz por descobrir o presente, como ele mesmo se diz;
Eu sou aquele, que gritou quando todo mundo calou, e chorou quando todos riram; que amou nem sempre como todo mundo, mas amou todo mundo como se sempre estivessem ali;
Eu sou aquele, que pediu socorro e recebeu uma cruz; e ficou feliz porque na cruz vinha escrito que bastava ser aquele que pediu socorro;
Eu sou aquele cara, que sendo só isso tem consciência limpa de não ser aquilo tudo que ainda não dá pra ser, e mente aberta pra fechar os olhos e deixar a musica tocar, até o fim... sem dúvida e sem medo.