sábado, 22 de março de 2008

Eterno

ETERNO
Carlos Drummond de Andrade

E como ficou chato ser moderno. Agora serei eterno.
Eterno! Eterno! O Padre Eterno, a vida eterna, o fogo eterno.
(Le silence eternel de ces espaces infinis m'effraie.)
— O que é eterno, Yayá Lindinha?
— Ingrato! é o amor que te tenho.
Eternalidade eternite
eternaltivamente eternuávamos eternicíssimo
A cada instante se criam novas categorias do eterno.
Eterna é a flor que se fana se soube florir
é o menino recém-nascido
antes que lhe dêem nome
e lhe comuniquem o sentimento do efêmero
é o gesto de enlaçar e beijar
na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata é minha mãe em mim que a estou pensando de tanto que a perdi de não pensá-la é o que se pensa em nós se estamos loucos é tudo que passou, porque passou é tudo que não passa, pois não houve eternas as palavras, eternos os pensamentos; e passageiras as obras. Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um mar profundo. Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos afundamos. É tentação e vertigem; e também a pirueta dos ébrios.
Eternos! Eternos, miseravelmente. O relógio no pulso é nosso confidente.
Mas não quero ser senão eterno.
Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma essência ou nem isso.
E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde pousou uma sombra e que não fique o chão nem fique a sombra mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como uma esponja no caos e entre oceanos de nada gere um ritmo.

quinta-feira, 6 de março de 2008

A lista

A lista
Oswaldo Montenegro

Faça uma lista de grandes amigos, que você mais via há dez anos atrás...
Quantos você inda vê todo dia? Quantos você já não encontra mais?
Quantos amores jurados pra sempre? Quantos você já conseguiu preservar?
Faça uma lista dos sonhos que tinha... Quantos você já deixou de sonhar?
Onde você inda se reconhece: na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria? Quantos amigos você jogou fora?
Quantos mistérios que você sondava, quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos você guardava?... hoje são bobos, ninguém quer saber.
Quantas mentiras você condenava, quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo, eram o melhor que havia em você?
Quantas canções que você não cantava, hoje assovia para sobreviver?
Quantas pessoas que você amava, hoje acredita... que amam você?
Faça uma lista de grandes amigos, que você mais via há dez anos atrás...
Quantos você inda vê todo dia? Quantos você já não encontra mais?
Quantos segredos você guardava?... hoje são bobos, ninguém quer saber.
Quantas pessoas que você amava, hoje acredita... que amam você?

Voltei(!?)

E aê galera! Oh eu aqui de novo. Quanto tempo, ein? Já estava com saudades de postar por aqui. Mas valeu a pena ficar esse tempo sem vir na Internet, vivi muita coisa boa, conheci muita gente, mudei ainda mais coisas em mim e na minha rotina, me apaixonei, desapaixonei, me apaixonei de novo, esperei, recebi, enfim, vivi intensamente. Eu não vou descrever aqui tudo o que eu fiz, afinal isso não é um diário (e mesmo se fosse), mas vocês vão ficar sabendo nos textos o que aconteceu.

Esse post é só pra avisar que eu voltei (voltei?), e espero que para ficar. Ainda tenho aqueles problemas de conexão (já tentei quase tudo, mas não tem jeito de chegar Internet lá em casa), mas vou tentar atualizar aqui toda semana. Dependendo da inspiração, dos convites e do tempo eu posto mais vezes. Os textos vão ficar sem links, por enquanto, mas assim que eu conseguir um acesso de vergonha à internet eu coloco.

Acho que é só. Te mais.

Ver Vendo

Ver Vendo

Otto Lara Resende

 

De tanto ver, a gente banaliza o olhar – vê... não vendo. Experimente ver, pela primeira vez, o que você ver todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é: o que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa retina é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que você vê no caminho, você não sabe. De tanto ver, você banaliza o olhar. Sei de um profissional que passou 32 anos a fil pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o porteiro. Dava-lhe bom dia e, às vezes, lhe passava um recado ou uma correspondência.

Um dia o porteiro faleceu. Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos nunca conseguiu vê-lo. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se, um dia, em seu lugar estivesse uma girafa cumprindo o rito, pode ser, também, que ninguém desse por sua agência.

O hábito suja os olhos e baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver: gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez, o que, de tão visto, ninguém vê. Há pai que raramente vê o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher.

Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos.
... É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.